Opinião: IRLANDA, GRANDE IRLANDA….

Mas em torno deste problema – realmente é um problema político grave, por muito complicada que seja a aldrabice ou a patifaria que andam a preparar para contornarem os resultados irlandeses, comportamento no qual Barroso está envolvido até à cabeça – colocam-se outros. Desde logo um que tem a ver com o realismo evidenciado pela presidência eslovena, em funções, que sabe que não se pode abrir agora um precedente sob pena da Europa ficar abandalhada, sem regras, minada por interesses nacionais e entregue a meia dúzia de líderes europeus que se julgam donos do “quintal”. Lembro que a presidência eslovena da União Europeia advertiu para a necessidade de reflectir e analisar o chumbo irlandês ao Tratado de Lisboa, considerando “ser cedo e arriscado dizer que será possível salvar o acordo: “Seria arriscado afirmar que vamos voltar a dar vida ao Tratado quando estamos perante um obstáculo”, salientou o ministro dos Negócios Estrangeiros esloveno, Dimitrij Rupel. O ministro considerou "ser demasiado cedo para começar a propor soluções" para o problema que voltou a mergulhar a Europa numa crise institucional”. Já antes dele, o próprio primeiro-ministro irlandês, Brian Cowen, considerara que a rejeição do tratado reformador é um problema de toda a União e não apenas a Irlanda, admitindo, tratar-se de um “doloroso dilema que o país tem de resolver, apesar de não encontrar soluções que lhe pareçam evidentes”.
É neste quadro que acho patéticas as tentativas de imposição aos irlandeses de soluções. Luís Amado, por exemplo, entende que um segundo referendo será "o caminho mais natural" para superar o impasse criado pela rejeição do Tratado de Lisboa na consulta popular da Irlanda, mesmo que tivesse sublinhado que “seria um erro grave que a União Europeia pagaria caro, ignorar o que se passou e não respeitar a decisão livre do povo irlandês, num processo democrático". Mais longe, porque mais atrevidote, parece querer ir o presidente Sarkosy – a França assume a liderança da União em 1 de Julho – já que manifestou intenção de viajar até à Irlanda com o intuito de avaliar as possibilidades de ultrapassar a rejeição do Tratado de Lisboa pelos irlandeses.
E depois, questão nem sempre valorizada, há que ter presente que o Reino Unido nunca colocará em causa a solidariedade para com a Irlanda, impedindo o isolamento desta mesmo que o Tratado de Lisboa caia. E nem vou falar no relacionamento, histórico e cultural existente entre os Estados Unidos e a Irlanda. Numa demonstração do grau de dificuldade existente, recordo que ainda recentemente li na imprensa que “o primeiro-ministro do Reino Unido, Gordon Brown, prefere sacrificar o Tratado de Lisboa a permitir que a rejeição irlandesa origine uma Europa a duas velocidades, segundo fontes de Downing Street ontem citadas pelo Times. Apesar de quase um milhão de irlandeses, 53,4% dos eleitores, terem chumbado o tratado no referendo, vários líderes europeus, encabeçados pelo francês Nicolas Sarkozy e pela alemã Angela Merkel, afirmaram que era preciso levar o processo de ratificação até ao fim (nos oito países que ainda faltam), com o objectivo é pressionar a Irlanda a repetir o referendo depois de lhe serem concedidas algumas excepções, como fez a Dinamarca, após rejeitar Maastricht em 1992”. Contudo as coisas podem não se resolver desta forma: “Caso Dublin recuse esta opção ou a segunda consulta popular volte a dar resultado negativo poderia discutir-se a hipótese de a Irlanda sair da UE, embora, na prática, tal opção pareça pouco viável, deixando caminho livre aos que querem ir mais além na integração. Isso permitiria criar a tão discutida Europa a duas velocidades. Brown, político eurocéptico, num país de eurocépticos, não gosta da ideia, refere o Times, preferindo matar o Tratado de Lisboa a permitir que alguns Estados membros possam ser individualmente deixados à deriva no meio dessa chamada Europa de geometria variável. A somar a isto Brown enfrenta forte pressão da oposição, dos média e do próprio partido, o Labour, para deixar cair a ratificação do tratado, aproveitando o "Não" irlandês. Além dele também o Presidente da República Checa, Vaclav Klaus, poderia aproveitar para anular a ratificação do documento”. Lembro que o Tratado de Lisboa já foi ratificado por via parlamentar por 18 Estados-membros, sendo que a Bélgica, Chipre, Espanha, Holanda, Itália, Reino Unido, República Checa e Suécia ainda não concluíram esse mesmo processo.
Luís Filipe Malheiro (in Jornal da Madeira, 18 de Junho de 2008)
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